sexta-feira, maio 13, 2005

Reflexão sobre Empresas Discográficas

O texto que hoje publicamos foi tirado do site da cantora brasileira Zizi Possi. Trata-se de um tema extremamente pertinente e que,infelizmente, acontece não só no Brasil, mas em Cabo Verde também. O abuso das empresas discográficas em relação aos seus artistas é algo muito comum no nosso país, os artistas são sempre colocados em segundo plano e raramente tem voz sobre os seus próprios trabalhos. Uma pena, que hoje em dia tudo seja feito pensando em mercado, o que leva-nos muitas vezes a consumir lixo musical em detrimento de algo agradável para nossos ouvidos.

Sem arriscar, do artista não brota a obra.
A realização dessa obra requer muita fé no que não se pode ver,
nem tocar,nem sequer acreditar que é possível...
e suportar a pressão dos incrédulos.
Ser artista é entre outras coisas, ter coragem de ousar,
de mergulhar no desconhecido até então.
Quem investe na arte?

Zizi Possi

Meus amigos;

Muitas pessoas que gostam de mim e do meu trabalho têm perguntado sobre a minha rescisão com a gravadora, e o que será do meu futuro.

Gostaria de responder a todos os que têm essa questão em mente, contando um pouco do que, e de como penso sobre isso.

Vale lembrar que não sou dona da verdade, nem pretendo convencer ninguém a respeito de nada.

Estou apenas expressando o meu ponto de vista, e esclarecendo minha opção.

É o seguinte:

A indústria da música no mundo gera o maior capital depois da de petróleo. Ou pelo menos gerava, antes da facilidade de reprodução de um CD pela pirataria, e da era Internet, ou seja: um próspero negócio.

As gravadoras multinacionais no Brasil, historicamente dominaram o mercado por serem mais ricas e organizadas, Graças ao geométrico potencial de desenvolvimento financeiro, chamaram a atenção e foram absorvidas por grandes corporações ou parques temáticos:

A CBS virou SONY MUSIC – mais um braço da SONY.

A POLYGRAM virou UNIVERSAL MUSIC – mais um braço do parque temático, cinema, bonequinho, álbum de figurinhas, etc e tal.... Que por sua vez já foi vendida para um grupo francês enoooooooooooooooooorme, e que nunca trabalhou com música antes.

A RCA de ontem, a do cachorrinho no gramofone, é hoje BMG. O André me mostrou pela Internet “ quem “é a BMG. Tentem ,e pasmem! E por aí vai...

Ou seja, nas últimas décadas, o negócio foi crescendo tanto que a própria indústria, deslumbrada com os louros conquistados, foi arrebatada pela tentação financeira e acabou abrindo mão de si própria, para se tornar mais um braço de uma grande corporação.

Como braço, se a “gravadora” não gerar um volume pré-determinado de dinheiro no ano, o cargo dos executivos entra em pane, e pode haver um desastre nas suas promissoras carreiras.

Que entre em pane então a arte, a cultura,o artista, e tudo o que é mais trabalhoso de colocar no mercado, pois o consumo deve ser rápido e por atacado. Sem riscos desnecessários.

Quanto mais essa rapidez atropeladora vai crescendo e “resolvendo” a questão, menos importância e cuidado sobra para a arte e o artista – originalmente a matéria prima da indústria!....

Salve as bundas! Salve o hedonismo! Salve a banalização do sexo, da televisão, do “tornar-se famoso a qualquer preço”, e da informação!!!
(que se faça justiça: esse mérito não é só da indústria da música!!! )

É o que temos, e teremos por um bom tempo, até que o mal se consuma a si próprio, e o povo se farte do sexismo, desmistifique a fama barata, e finalmente respire a permissão de merecer mais e melhor do que isso.

Em contrapartida, o Brasil é um grande mercado para a música. Não é tão difícil alcançar o mínimo anual estipulado. Não requer grandes investimentos comparados aos que os outros braços costumam disponibilizar para o marketing dos respectivos produtos.

Desde que abriu mão da sua identidade para se tornar “parte” de algo maior, deixou também de crescer, de se atualizar, pesquisar, abrir mercados novos, e de investir adequadamente nos seus produtos. Os caminhos para divulgação trocaram de nome mas continuam os mesmos!

Me pergunto:

Qual é o investimento de suporte que a indústria já fez por aqui?

Casas de espetáculo:

Empresas de igual ou menor porte,investem em suas marcas associando seus nomes a espaços culturais:
ATL Hall (Rio), Credicard Hall, Direct Tv Hall, Teatro Alpha Real (S.P.)

- Tem algum “UNIVERSAL MUSIC´S THEATER“ em algum lugar do Brasil?
Quem sabe um “WARNER Music Hall“ ????

Entre nós: para quem trabalha com música, investir num “show room ” - um lugar adequado para a apresentação da mesma - não é tão incoerente assim.... você não acha????

Seria até uma garantia de visibilidade para seu investimento, além de ser uma mais do que justa forma de reconhecer a hospitalidade brasileira, oferecendo à sociedade e ao artista mais um local de cultura, lazer e trabalho.

O Bradesco – instituição financeira – fundou e cuida de um grande e super bem estruturado orfanato.
O Bank Boston - instituição financeira - também.
O Itaú - instituição financeira - tem um centro cultural que oferece espaço e visibilidade para que artistas de várias áreas possam mostrar seu trabalho e o público tenha acesso à arte e informação.

Vocês já viram alguma ação cultural e /ou benemérita das multinacionais da música no Brasil ????

Tudo bem que a TV a cabo seja outro braço desta verdadeira “SHIVA” capitalista, e que portanto temos bolsos diferentes........ embora na mesma calça. Seria uma heresia pensar em contar com uma pequena janela – pode ser até uma fresta – para a apresentação do nosso produto musical, o da própria empresa ?!!? Todo o longa metragem lançado,tem sua trilha sonora distribuída e vendida pelo seu “braço” música do país em questão. Será que isso deveria permanecer assim mesmo, unilateral????

Aí vem aquelas justificativas todas para explicar que a divulgação é escassa porque os programas são sempre os mesmos etc etc

Ai que pena e que cansaço!
Tenho 24 anos de carreira profissional, e 46 de idade, ou seja: não dá mais para ouvir as mesmas desculpas de sempre por aquilo que não foi feito, e acreditar que as alternativas não são viáveis!!!!!

Reclamam da pirataria, e com razão. Mas temos de reconhecer que o mercado foi negligenciado pela própria indústria. Ela sempre subestimou o que chamava de “menor “. Nisso incluem-se a própria pirataria, que há 10 anos atrás representava um “nada” para o mercado, e as pequenas cadeias ou lojas isoladas, porém especializadas em música. A inadimplência alegada para o corte ao crédito das pequenas lojas, realmente é um fator desestruturador e requer providências.
Nem sempre encontramos a melhor saída para a crise. Acho que abrindo mão de vender música, abriu-se mão do mercado dela.

Tenho saudade de entrar naquela loja onde o mocinho de crachá se aproximava para ajudar, e quando eu perguntava sobre um determinado artista, ele sabia tudo o que havia sido gravado nos últimos anos. Mostrava os CDs, citava músicos e o solo da guitarra numa canção, o de sax na outra.... Eram bons os tempos em que se ouvia um disco inteiro com prazer e sede de estar perto da criação e do artista.

Hoje em dia, as lojas minguaram a tal ponto, que só se encontram CDs em supermercados, loja de departamentos, postos de gasolina, e graças a Deus em livrarias! Imaginem, o CD, produto tão vendido no país, perdeu sua própria loja!!!!

O terrível, é que nesses lugares, (nas livrarias menos) não há lugar para catálogos. Você só acha os sucessos:
1- da novela,
2- das rádios de “parada musical” ,
3- de compilação feito pela própria gravadora para parecer produto novo, e
4- com sorte, dos últimos 2 ou 3 CDs do artista – lógico, se tiverem sido um sucesso!

Sucesso – essa é outra boa questão a se repensar. O sinônimo de sucesso para mim sempre foi o de obter um resultado positivo como decorrência de algum bom trabalho.

Para se obter um resultado é preciso fazer alguma operação antes, certo?

Então, desde que sucesso passou a ser encarado como sinônimo de fama e de dinheiro a qualquer preço, foi diminuída a importância do trabalho do artista. O sucesso passou a ser a meta, e não o resultado.

As máquinas maravilhosas que corrigem desafinações, e trazem já ritmos e timbres completos, são capazes de reduzir o número de músicos e de consertar qualquer erro. Não sou contra essa tecnologia, muito pelo contrário – acho bárbaro! Só sinto por ela estar sendo utilizada tão abusivamente. O mercado e a mídia podem estar lotados de pessoas que se tornam famosas, mas nem por isso podem ser reconhecidas como artistas.

Isso é sucesso?????

Olha, até meu cachorrinho pode latir afinadinho, e com sorte se cair no gosto popular, ser o maior sucesso do Brasil. Sucesso no dicionário deles, bem entendido!

Cabe dizer, que neste momento da história, a indústria nacional de música – ontem um “nada “ para o mercado - tem revelado extrema criatividade ao lidar com o mercado, a mídia e as concorrentes. Que bom poder olhar para este cenário e ver que a batuta na mão da indústria brasileira (a verdadeira ABPD) está regendo um leque aberto de opções menos preconceituosas, preguiçosas e tendenciosas, garantindo um pouco da imensa variedade de músicas e estilos do país – o que caracteriza nossa riqueza cultural.

Tomara que não se percam pelo caminho. Não haverão de se perder!

Enfim quem sou eu para criticar? Como já disse desde o início, não sou dona da verdade. Essa é apenas a minha visão deste momento da história da música popular & indústria & mercado.

A mim, cabe apenas saber até onde posso andar nessa direção.Não me reflito nesses valores.

Sei que vai ser trabalhoso daqui por diante realizar meus projetos sem o suporte financeiro e mercadológico da indústria, mas acredito que vai rolar sim!Parei de andar por esse caminho, mas não parei de cantar. Gosto de música, muito! De música com “M” maiúsculo. E é essa a música que pretendo realizar sempre. Pode demorar um pouquinho, mas tenho certeza que vai rolar!

Para você meu querido amigo, que vem me acompanhando ha algum tempo, agradeço de coração, e espero retribuir lhe apresentando um trabalho do tamanho do seu carinho e atenção.
Vamos manter contato!

Um grande beijo,
ZZ