domingo, fevereiro 13, 2005

Revista Dá Fala já ta na rua!!!

“Talvez é a palavra diariamente mais usada neste arquipélago. Mas nós contrapomos um sim de afirmação de vontade urgência em fazer esta revista. Plena de força expressiva, Dá Fala faz alusão ao mundo novo que os poetas das ilhas cantaram, que agora chega e nos bate à porta convidando-nos a viajar, a mexer, a passar além da fronteira, a franquear este “Porton di nôs ilha”. Dos vários significados da expressão no seu uso vulgar, salientamos que Dá Fala é ir ter com as pessoas, a partir da fala dar voz às pessoas…abrir-se às pessoas…Dá Fala é conectar com este mundo generoso. É retomar a herança, na óptica do Capitão das ilhas, consciente de que a herança não é dádiva, mas sim descoberta e invenção. É recusa categórica da passividade imposta, da “geração rasca” magistralmente suportada por muitos. É romper as grades do silêncio desta condição insular. È inquietar-se, dar um murro nos olhos do mundo para assim poder ver melhor e, com ou sem “topada” (tropeços), caminhar…Dá Fala é ter palavra, ter palavra é ter poder, e assim acender a nossa minúscula lanterna de mil cores, neste cadinho de terra lançado no baricentro dos três grandes continentes, África, Europa, América.

Como verbo de eleição escolhemos, portanto, intervir. Do latim inter “colocar-se entre”. Sinónimo de tomar parte ou participar, usar da palavra, agir no sentido de alterar, influenciar uma situação. Dá Fala surge da ideia de que “precisamos de sintonizar Cabo Verde com o universo” (como se diz em Chiquinho) e é oportunidade de expressão, com colaborações de gente que começa a escrever até aos nossos ilustres convidados artistas e pensadores. Para todos, um conselho: tirem as vossas prosas da gaveta, ou melhor, do disco rigido para o papel e façam o mundo girar mais depressa com a força das palavras”.

Ess é extrate de um parte de editorial de revista Dá Fala que foi lançode sexta-feira, dia 11 de fevereiro na Soncente. Ess primer númere desse revista é frute de persistência, tcheu traboi, e principalmente de sonhe de alguns jovens na Soncente de kre pô mais um instrumento na mon desse sociedade k realmente cada dia meste ser mais ativo. Ess revista é parcialmente financiode pa Instituto Português de Apoio de Desenvolvimento ma pel tem continuidade el meste de apoios pa sustental, por isso nó apoia esse iniciativa. No kompra Dá Fala, no dze nós amigos pa compra também, no apoial k publicidade, no escreve pa Dá Fala, o simplesmente dá um fala, afinal ess revista nó kre pal ser de tud nós, de Sintantom a Brava.

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Sobre a vaidade no campo acadêmico


Pessoal hoje m ti ta coloca li um texte k m otcha interessante, só pa se titulo gente ta oia k el é sugestive. M ta otcha k esse texto ta dente de linha de discussão de texte k foi colocode li ness blog antes. Ess texte é de Professor António Ozaí da Silva, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PCU/SP), do Conselho Editorial da Revista Margem Esquerda e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo.

Esse texte foi trode de Revista Espaço Acadêmico, N 45 de fevereiro de 2005 www.espacoacademico.com.br .

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Ele entra na sala de aula e escreve o seu nome na lousa: Prof. Dr. fulano de tal. Durante sua brilhante exposição – de acordo com a sua própria opinião – um aluno, um tanto desatento às exigências hierárquicas e ritualísticas, lança-lhe uma pergunta. O problema não está no questionamento. O Prof. Dr. fulano de tal, do alto da sua sapiência naquilo que lhe dá o status de “o” especialista, tem resposta para tudo (e se não tem, enrola, pois quem ousará duvidar da sua autoridade?!). Não, a irritação que o Prof. Dr. fulano de tal expressa em seu tom de voz é uma reação à impertinência do aluno. E ele, o professor, deixa-o claro na resposta: “Aqui em sala de aula – e aponta para o escrito na lousa – sou o Prof. Dr. fulano de tal. Pobre aluno que ousou chamá-lo apenas de professor!

Ela é doutora, uma das poucas naquela instituição. Isto lhe parece garantir status diferenciado em relação aos demais. Os colegas comentam nos corredores sobre a arrogância da Profª Drª fulana de tal. Mas eles têm lá as suas vaidades e, no final das contas, a Profª Drª fulana de tal sabe que, embora não tenham o mesmo título, desempenham a mesma função – e quem sabe, sejam melhores naquilo que fazem! Por via das dúvidas, ela tem o cuidado de não ultrapassar certos limites. Muito diferente se dá em relação aos seus alunos. Estes, coitados, têm apenas como mérito a vitória no funil do vestibular. Para a ela isto não tem grande valor – e talvez ela tenha razão, pois não há correspondência direta entre memorização de conteúdo, inteligência e capacidade de reflexão crítica. Ela não admite intromissão dos alunos; os que ousam lhe dirigir a palavra são rispidamente colocados em seu devido lugar. A Profª Drª fulana de tal não admite, sobretudo, questionamentos sobre as verdades que verte diante dos pupilos. Os que insistem em questioná-la são silenciados e ela não hesita em usar adjetivos nada positivos para aquelas mentes em formação. “São uns burros! Estudem primeiro!” (Quem sabe quando tiverem doutorado possam conversar de igual para igual; o que não sabemos é se a Profª Drª fulana de tal ainda estará sobre ou sob a face da terra). Mas eis que os alunos decidem protestar e mostram que são inteligentes o suficiente para adotar uma estratégia cujo resultado é tão positivo quanto dolorido: o desprezo. Um belo dia ela se dirige à sala de aula e se vê diante de uma situação inusitada: a sala está vazia; os alunos e os móveis utilizados por estes estão na parte externa da sala; dentro, apenas a mesa da Profª Drª fulana de tal. A propósito para que serve o educador se não tem a quem educar?

Ele é um excelente professor. Domina o conteúdo e se impõe em sala de aula. Para ele, rigor científico equivale às grandes teorias expostas por autores que escrevem em estilo ininteligível para a maioria dos seres mortais. Para ler tais textos, e compreendê-los minimamente, seus alunos precisam recorrer aos dicionários das várias áreas do conhecimento humano. Ele não se importa, afinal já sabe e teve que passar por isso. Sua linguagem obedece à formação teórica, política e ideológica que teve: é igualmente ininteligível. Numa das suas aulas, os alunos conseguem trazê-lo para o mundo real e estabelecem acirrado debate sobre as eleições. Ele se vê pressionado pelo questionamento da sua posição política. Então, ele recorre àquele tipo de argumento aparentemente inquestionável e que finda qualquer discussão: “Vocês não compreendem, vocês só lêem o jornal Folha de S. Paulo”. Pronto! Em outras palavras: “Como ousam discutir comigo, eu que tanto li e que tenho a experiência dos anos? Cresçam, leiam os textos que li, estudem os autores que estudei e, então, talvez terão condição de me questionarem”. A vaidade dificulta o entendimento de que a retórica pomposa nem sempre dá conta de tudo; que a realidade é mais rica que a cinzenta teoria; e que, para se posicionar politicamente, nem sempre é necessário o domínio das teorias complexas. Sua atitude demonstra uma visão elitista e preconceituosa em relação ao conhecimento que não se enquadra nos cânones formais da academia. O professor perdeu o debate político, as estribeiras e do alto da sua alegada experiência, fundada no acúmulo de leituras, ele se mostra incapaz de manter o equilíbrio diante dos seus tão inexperientes alunos. Ele perdeu também a oportunidade de refletir sobre os vínculos entre a excelência do seu conhecimento teórico e a vaidade no inconfessável sentimento de superioridade.

Ela escreve mal. Seu estilo é panfletário. Uma eterna repetição de slogans e fórmulas desgastantes, recheadas por inumeráveis citações, argumentos de autoridade que, repisados à exaustão, demonstram pelo menos uma coisa: ela é leitora de um único autor. Sua verdade é a verdade revelada pela interpretação do texto sagrado. Ela talvez não tenha consciência do que faz, mas age como sacerdotisa de um culto profano. É a guardiã do dogma, é sectária. Mas... ela é sua Ex.ª a Drª., e tudo lhe será perdoado! Como disse Aquele cujo nome conhecemos: “Ela não sabe o que faz!” Ela continuará a associar as palavras e se imagina a auctoritate no assunto. Uma autoridade menor, é verdade; uma espécie de reflexo de uma luz maior e poderosa, isto é, a autoridade na qual se espelha e cita abusivamente. Ela propaga esta luminosidade, se nutre dela. Em sua humilde condição de discípula, ela se vê como o instrumento de difusão da energia que deve alimentar a humanidade. Todo o seu poder advém do autor sacralizado e dos seus livros canônicos. Não obstante, não esqueçamos: ela é a Ex.ª a Drª E isto lhe dá mais força em sua missão redentora; dá-lhe, ao menos, a condição de estabelecer um séqüito de aprendizes e guardiões do dogma. Seu profeta ainda não foi canonizado pela Santa Madre Igreja, mas foi elevado à altura dos cânones reconhecidos pelos profanos, os quais constituem várias igrejas – que polemizam entre si, mas se saciam nas mesmas fontes.

Ele escreve bem! Seu estilo é erudito e demonstra ruptura com os enquadramentos estanques entre as diversas áreas do conhecimento humano. Definitivamente, ele não é um especialista. O que o qualifica positivamente, pelo menos na percepção de alguns dos seus colegas, é visto como embuste pelos mexeriqueiros a postos. “É um charlatão!”, dizem as más línguas. Não devemos legitimar este tipo de comentário, nem participarmos do jogo mais antigo e preferido dos que passam a própria vida a falar da vida alheia. Contudo, como diz o dito popular, “onde há fumaça, há fogo”. Quando se escreve sobre tudo e todos, arrisca-se a perder o bom senso sobre a limitada capacidade humana em relação ao conhecimento. Assim, se tais injúrias nos chegam aos ouvidos, devemos ter o bom senso de pensar sobre o nosso proceder. Mas eis que entra em cena a vaidade: imersa em sua própria luz, sua Ex.ª o Dr. faz ouvido de mouco. E a sua fama atinge o ápice. Um olhar atento e não propenso aos mexericos poderia ajudá-lo a perceber que sua pretensa erudição não é suficiente para mascarar o conhecimento enciclopédico e dicionáristico; e, talvez o mais importante, poderia contribuir para que ele tivesse o bom juízo de não se imiscuir no que não deve. Mas quem ousará falar-lhe sobre tema tão complexo e, ainda por cima, tenha a capacidade de não ferir sua vaidade? O risco é que ele, embevecido, não o escute e ainda lhe atire a pecha de invejoso ou algo parecido.

Seja num ou noutro caso, o que escreve bem ou mal, é muito difícil tecer qualquer comentário sem ferir susceptibilidades. A propósito, há no meio acadêmico uma falsa identificação entre titulação e capacidade de escrever. O fato de o indivíduo ter o título de doutor não é garantia automática de que ele saiba escrever bem e, muito menos, que é um bom professor – no sentido didático e pedagógico. Escrever bem não é apenas juntar palavras e formar frases altissonantes. A suposta erudição demonstrada num texto ininteligível não é, necessariamente, uma qualidade intelectual; pode ser, simplesmente, pura afetação. A complexidade na linguagem muitas vezes caracteriza um exercício de arrogância, de pose acadêmica, relacionado à necessidade do intelectual em se firmar pelo status.

Mas, voltemos à sua Ex.ª o Dr. No fundo ele se imagina imune ao risível. Portanto, ele age com naturalidade, como se os simples mortais, incluindo seus alunos, fossem obrigados a pagar um tributo à sua titulação. Estes, por seu turno, projetam nele o futuro a ser alcançado. Suas atitudes passam a ser modelares – para o bem e para o mal. Além de modelo a ser seguido – ou repudiado – o Prof. Dr. fulano de tal, pela posição que ocupa na hierarquia acadêmica, tem recursos para manter aos alunos sob sua dependência.

É claro, há as exceções. Tomemos os exemplos acima como tipos ideais. Não significa que existam na realidade exatamente como descritos, mas representam espécies que podem ser encontradas na selva acadêmica. E, a favor, destes tipos, devemos acrescentar que: 1) a cultura e os valores predominantes no campo acadêmico são elitistas; 2) a universidade reproduz os princípios que fundamentam a competição na sociedade; 3) a vaidade é humana.

Demasiadamente humano

A vaidade é humana, demasiadamente humana! Eis um pleonasmo necessário. Sim, porque muitas vezes são precisamente tais características as que menos se tornam objeto de nossas reflexões – e não me refiro aos exercícios mentais filosóficos, sociológicos ou coisa do tipo, mas sim, a uma atitude que, me parece, deveria pautar nossas ações cotidianas. Comecemos por assumir que, em menor ou maior grau, todos somos vaidosos. Já os antigos, através do mito de narciso, ensinaram que o desejo desenfreado em atrair a admiração e a atenção produz conseqüências que podem ser trágicas. No limite é uma demonstração de tremenda sandice.

É incrível como, mesmo diante de situações nas quais a vaidade não faz qualquer diferença, os homens e mulheres não conseguem se livrar deste sentimento. O diálogo entre um jardineiro e o visitante de um cemitério, escrito por Alexandre Dumas Filho (2003:47), em A Dama das Camélias, ilustra bem este aspecto:

“Quero dizer que existe gente que é orgulhosa até no cemitério. Parece que esta mademoiselle Gautier fazia a vida, desculpe a expressão. Agora ela está morta e é igualzinha às mulheres que nada fizeram de reprovável e das quais regamos as flores todos os dias. Pois bem, quando os parentes das pessoas que estão enterradas ao lado dela souberam a vida que essa moça levava, revoltaram-se por ela ter sido enterrada aqui e disseram que deveria haver um lugar só para esse tipo de mulheres, como há para os pobres. O senhor já viu uma coisa dessas? Eu teria postos essas pessoas no lugar deles! Gente gorducha que vive de rendas, que não vem sequer quatro vezes por ano visitar seus defuntos, que traz pessoalmente as flores... e veja que flores! Eles reclamam dos gastos de conservação das sepulturas daqueles por quem dizem chorar, escrevem nas lápides sobre lágrimas que jamais derramaram e se fazem de difíceis, querendo escolher a vizinhança”.

Durante muito tempo acreditei que a morte nos igualava. “Pelo menos isso!”, pensava. Hoje, tenho consciência de a sociedade cria desigualdades que extrapolam o próprio caráter da finitude humana. Mas deixemos estes homens e mulheres de ares aristocráticos em seus próprios devaneios e retomemos o fio da meada.

Max Weber observou que a vaidade pode levar o político a cometer um dos pecados fatais em política, ou ambos, simultaneamente: se abster de assumir uma causa e do sentimento de responsabilidade. Se o político está sujeito à vaidade, o intelectual padece da mesma doença. “A vaidade é um traço comum e, talvez, não haja pessoa alguma que dela esteja totalmente isenta. Nos meios científicos e universitários, ela chega a constituir-se numa espécie de moléstia profissional”, sentencia Weber. (grifos nosso) Não obstante, o sociólogo alemão é condescendente com os colegas acadêmicos, pois considera que a vaidade do intelectual não oferece tanto risco à sua atividade quanto o que ocorre em relação ao político: “Contudo, quando se manifesta no cientista, por mais antipatia que provoque, mostra-se relativamente inofensiva, no sentido de que, via de regra, não lhe perturba a atividade científica”. (WEBER, 1993: 107) Será?! Para o estudante ou o colega que tem que suportar a vaidade desmedida, talvez seja o oposto que ocorra. Do ponto de vista puramente empírico, os que nos oferecem mais riscos são os que estão mais próximos!

Mas deixemos Weber em paz! Independentemente das suas formulações sobre a vocação do cientista e do político, o fato é que esta “espécie de moléstia profissional” grassa em nosso meio. E as pessoas sensatas talvez se perguntem: por que? Há, inclusive, a espécie de ingênuo que candidamente imagina que este tipo de comportamento é algo contraditório com o espírito culto que, em tese, permeia a universidade. “Como é possível?, se pergunta. Ele tem a esperança de que os colegas, através do diálogo e da persuasão, superem as influências nefastas que os fazem agir incivilizadamente. Como diria aquele personagem das histórias em quadrinhos: “Santa ingenuidade!!!”.

Todavia, observe-se que mesmo este tipo de ingênuo padece da mesma “espécie de moléstia profissional”: na essência sua postura é prisioneira de uma vaidade enrustida numa pretensa humildade; é uma atitude idealista, no sentido de que desloca a universidade – e os que nela trabalham – da realidade social na qual está inserida; é elitista porque, no fundo, se imagina como partícipe de um mundo constituído por seres especiais, dotados de moral e cultura superiores e capazes de escapar às futilidades humanas. Este personagem não se reconhece no mundo real e se escandaliza porque seus pares não representam o mundo imaginário do Olimpo. É vaidoso e talvez não o saiba porque lhe parece natural a vaidade de sentir-se superior!

Concluindo...

Se a vaidade é humana, não é possível compreendê-la apenas pelo senso comum quanto às atitudes observáveis no campo acadêmico. A sociologia pode contribuir para compreendermos este fenômeno. E isso talvez seja um bom começo para evitarmos repetir o que reprovamos nos outros. Mas, é claro, a sociologia – ou as grandes teorias, em geral – não são antídotos para tal moléstia. Um grande passo para quem deseje se curar é voltar-se para si mesmo e... mudar de atitude. No mais é necessário muita, muita, muita paciência!

[1] Em artigos publicados nesta revista procuramos analisar criticamente o vestibular e o método de ensino decoreba, um dos seus principais pilares, e que influi sobre todo o processo de ensino-aprendizagem, do nível fundamental ao superior. Ver: À mestra e ao mestre com carinho e compreensão!; O engodo do vestibular e os dilemas da classe média empobrecida; “Estudo Errado”: Qual é a capital de Kubanacan?; e, As dimensões da relação aprender-ensinar; e, Vale nota, professor?!

[2] Em certos casos, a complexidade das grandes teorias também pode ser um recurso para que elas se firmem, tornando-se áreas restritas à uma ínfima minoria de especialistas. Tais teorias, como assinalou MILLS (1982:30) na crítica a Parsons, padecem de “um formalismo complicado e árido, no qual a divisão dos Conceitos e uma interminável redisposição torna-se a principal tarefa”. É preciso traduzi-las. E, então, fica nítido que a sua complexidade é um recurso formalista, ou seja, que não é preciso escrever longos e ininteligíveis parágrafos para explicar as coisas simples. Os conceitos são necessários, mas é preciso relacioná-los com a realidade social e movimentar-se entre os diversos níveis de abstração. Em geral, a ininteligibilidade esconde o fetichismo dos conceitos e cumprem uma função excludente, gerando a ilusão de que o seu domínio torna alguns superiores aos demais.

[3] A necessidade de citar e recitar está vinculada a uma espécie de humilde sacerdócio. Como analisa BOURDIEU (1998: 162): “O sacerdócio comum cita e recita; o grande sacerdócio suscita e ressuscita. Pode acontecer que leve a audácia até o ponto de expor as discordâncias ou mesmo as contradições (é o caso de Abelardo) encontradas nas fontes de revelação”.

[4] A identificação com o ‘profeta’ não é apenas um exercício de sacerdócio, ela gera dividendos, isto é, ‘lucros’: “O eu sacerdotal deriva da autoridade do profeta de origem; todavia, por maior que seja a modéstia (condição de participação no capital herdado de autoridade) que o impede de falar efetivamente na primeira pessoa, ele não pode esquecer que possui algum mérito por restaurar o capital em sua integridade através da desbanalização, revolução da leitura que define a revolução letrada.” (BOURDIEU, 1998: 160 e 62) Ele é o instrumento de propagação da palavra, a qual, proferida por ele parece-lhe ter a mesma autenticidade daquela pronunciada (escrita) pelo profeta de origem: “O sacerdócio se instaura como guardião da autenticidade da mensagem, a única capaz de proteger contra a “recaída” nos erros...” [em relação ao profeta] (Id.: 162-63).

[5] “Só o discípulo faz legitimamente o “sacrifício do intelecto” em favor do profeta, como só crente o faz em favor da Igreja. Nunca, porém, se viu nascer uma nova profecia (...) em razão de certos intelectuais modernos experimentarem a necessidade de mobilizar a alma com objetos antigos e portadores, por assim dizer, de garantia de autenticidade, aos quais acrescentam a religião, que aliás não praticam, simplesmente pelo fato de recordarem que ela faz parte daquelas antiguidade. Dessa maneira substituem a religião por um sucedâneo com que enfeitam a alma como se enfeita uma capela privada, ornamentando-a com ídolos trazidos de todas as partes do mundo. Ou criam sucedâneos de todas as possíveis formas de experiência, aos quais atribuem dignidade de santidade mística, para traficá-los no mercado de livros. Ora, tudo isso não passa de uma forma de charlatanismo, de maneira de se iludir a si mesmo”. (WEBER, 1993: 50)

[6] Com enfatiza MILLS (1982:235): “Escrever é também pretender para si um status pelo menos bastante para ser lido. O jovem acadêmico participa muito de ambas as pretensões, e porque sente que lhe falta uma posição pública, com freqüência coloca o status acima da atenção do leitor a quem se dirige.(...) O desejo do prestígio é uma das razões pelas quais os acadêmicos escorregam, com tanta facilidade para o ininteligível”. Mas também é o caso do acadêmico já em idade avançada, que, por arrogância ou falta de criatividade, procura impressionar pela falsa erudição.

[7] A sociologia e, também a literatura e o cinema. Ver: Óleo de Lorenzo e Patch Adams: A arrogância titulada; Os intelectuais diante do mundo: engajamento e responsabilidade; e, Aqui jaz fulano de tal... e a sua superioridade!

sábado, fevereiro 05, 2005

A Universidade de Cabo Verde e as universidades em Cabo Verde

As universidades sempre desempenharam um papel importante em qualquer sociedade, estimulando o desenvolvimento intelectual, servindo-se de centro de formação de lideres sociais, politicos, religiosos e civis. Um lugar onde haja produção, reprodução e socialização de conhecimento, constituindo-se num elemento necessário ao desenvolvimento e progresso de qualquer país.

A Universidade Pública de Cabo Verde está a caminho. Esta surge após a decadência de um modelo de finaciamento de bolsas de estudos no exterior, o qual se via claramente que um dia não conseguiriamos suportar mais pois, os tempos mudam e as ajudas também. Pressionados pelo aumento da demanda de bolsas de estudos para o exterior por parte dos estudantes que terminavam o 12º Ano e sem conseguir dar vazão a todos os pedidos, o Ministério da Educação optou por abrir o mercado do ensino Superior em Cabo Verde para Institutos e Universidades privadas, tirando de suas costas o peso de um problema há muito anunciado.

Não sei se essa foi a melhor opção, ainda que a cada dia esses institutos e universidades (será que podemos chama-los de universidades??) continuam mais lotados. Uma coisa que sempre coloco em questão é a qualidade e o nivel de ensino repassado nestas instituições. Isso vai desde a carência de infraestruturas a falta de quadros minimamente preparados para lecionar. Como é que em Cabo Verde possa existir universidades (??) funcionando sem uma biblioteca adequadamente equipada para consulta dos seus alunos, sem falar de laboratórios e outros.

Será que a maioria desse pessoal que está dando aulas está, realmente, preparado para tal só com um simples curso de graduação (lembremos que toda a regra tem excepção), ou estão lá porque agora é chic em Cabo Verde ser professor ou professora de universidade e dá para ganhar um bom dinheiro no final do mês. Um dos papéis da universidade é pensar criticamente a própria sociedade em que está inserida, será que isso acontece aqui? Com certeza que essas são questões que devemos levantar, na medida em que isso tudo vai refletir na capacidade e na qualidade do aluno que está se formando e que por sua vez será um futuro quadro do nosso país.

Portanto, todo aquele cidadão ou cidadã que paga sua mensalidade ou propina, deveria exigir instituições que primam pela boa qualidade do ensino e pelo não aumento de custos para os estudantes.

Mas voltando a nossa Universidade de Cabo Verde, esta, surge numa época em que muitos países já estão falando em Reforma Universitária, por isso acredito que devemos analisar profundamente um modelo que adapte as nossas realidades. Ou seja, ter sempre em mente os valores e objectivos peculiares às demandas do nosso país, colaborando na produção e transmissão de conhecimento de forma a transformar e melhorar o nosso Cabo Verde.

Para que isso se torne possível, concordo plenamente com Fernando GALEMBECK e Luis Carlos Guedes PINTO em (http://www.adunicamp.org.br/jornal/projeto.htm) quando dizem que a "...autonomia, a pluralidade, o caráter público, o contato e a integração com o conjunto da sociedade, o compromisso com a liberdade, com a verdade e com a qualidade, a postura crítica, a inquietação e o inconformismo permanentes, a prática da democracia" devem permear a vida universitária.

Certamente o que menos queremos é que a Universidade de Cabo Verde seja mais um fator de custos, desigualdade e alienação social, mas sim um potencial para gerar novos valores, novas perspectivas, novas soluções.

Mas antes de ir embora queria deixar aqui um ponto para reflexão, algo que há algum tempo me inquieta e que dentro desse tema acho ser de extrema relevância. Será que vale melhorar a escolaridade de toda a população sem que isso seja acompanhado de crescimento econômico, geração de emprego e de renda?