domingo, janeiro 23, 2005

Que Comunicação Social é essa ?


Em muitas sociedades do mundo a comunicação social (imprensa escrita, rádio, televisão e internet) desempenha uma função muito importante, servindo de elo de ligação entre os vários governos e a sociedade civil. Nas sociedades contemporâneas, geralmente a midia é vista como um quarto poder, juntamente com o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, e como geradora de opinião pública.

Qualquer democracia é estrangulada a partir do momento em que os meios de comunicação de massa são controlados. Para que o cidadão possa fazer uma opção política consciente, este precisa de estar munido de informações adequadas sobre quais são os projectos em discussão, quem os apóia, quais são os beneficios desses projectos, em quê podem ser prejudiciais, quais são as alternativas possíveis e os desafios a serem enfrentados. Mas para isso a informação tem que ter, acima de tudo, um caráter plural.

Considero que, para além de informar adequadamente, a comunicação social deve criar plataformas para debates locais e nacionais, servir de ponte interactiva entre a sociedade e os governos nas suas mais variadas dimenões, actuar como porta voz de toda as camadas da sociedade, constituir-se num veículo educativo, ser um instrumento para melhor compreensão da realidade caboverdiana e principalmente um meio para o desenvolvimento de Cabo Verde.

Mas em Cabo Verde, que comunicação social é essa que temos? O que estes tem vindo a fazer? Acho que se perdeu uma boa oportunidade para fazer uma reflexão, aquando da comemoração dos 20 anos de existência da Televisão de Cabo Verde (que para mim continua sendo a Televisão Experimental de Cabo Verde ou TVEC), em vez de fazerem aquela Gala, que de galante tinha muito pouco.

As vezes quando pego num jornal, ou abro a rádio ou a televisão fico perguntando se em Cabo Verde estamos brincando de televisão, rádio, jornal ou se temos jornalistas formados, sérios, competentes, mas que ainda não decidiram começar a fazer uso do seu potencial e poder de criação. É uma vergonha!!

Pelo pouco que conheço de jornalismo ou do trabalho jornalístico, este “consiste em recolher informações dispersas (através de uma rede de repórteres), “empacotá-las” através de determinados processos técnicos (jornal, rádio, televisão) e, enfim, distribuir o
produto final a uma audiência diversificada.”

Nota-se que os repórteres são quem devem recolher as informações, ou seja, correr atrás do que pode ser notícia. Aqui não, as noticías correm atrás dos repórteres, implorando para que sejam colocadas no ar ou no papel. Isso é preguiça fisica e mental, sempre travestido da desculpa que “não temos meios.” Ora, por favor, pelo menos arrumem outra desculpa porque já cansamos desta!!

Uma dúvida que me inquieta já faz algum tempo é saber se, por acaso, algum dos meios da nossa comunicação social tem um Plano Editorial, ou uma politica editorial que norteie os seus trabalhos. Ou será que não é preciso, cada um chega na rádio, coloca uma hora de música como bem lhe apetece, fala o que lhe vem a cabeça (quando não grita, como é hábito em algumas das rádios que temos por aqui) e vai embora.

Acho que nós, os cidadãos, contribuintes da taxa de RTC nas contas de luz e água (mesmo aqueles que não tem tv ou que escutam rádios a pilha) merecemos outra coisa, que não seja essa porcaria que invade as nossas casas diariamente, esses panfletos que saiem semanalmente para a delícia de alguns militantes fanáticos e outro modelo de rádio que não nos veja simplesmente como consumidores e sirva para nos estressar com seus berros e leviandades. Como disse um grande especialista em Comunicação: “O mercado reduz informação e cultura a elementos da disputa pela audiência (ou, melhor, pelas verbas publicitárias), o que leva à padronização dos conteúdos e à tendência a tratar o público como consumidor, e não cidadão.”

Portanto, precisamos urgentemente de alternativas, de um sector de radiodifusão, televisão e imprensa pública independente de pressões governamentais e que não estejam submetidos aos imperativos do mercado. Todos sabemos que isso não cai do céu, fácil não é. Pressupõe organização, trabalho, dedicação, seriedade, fontes claras de financiamento, tempo e investimento. Mas sendo que essas alternativas ainda não existem e continuo acreditando plenamente na capacidade e criatividade dos caboverdeanos e das caboverdeanas, queria deixar aqui algumas sugestões para que tenhamos uma midia diferente (principalmente a rádio) e com um pouco mais de qualidade.

Acredito que com as tecnologias que hoje possuimos, fica mais fácil fazer um programa de rádio. Através da internet temos o mundo a nossa frente, temos um árquipelágo chamado Cabo Verde, que ainda tem temas e mais temas a serem explorados. Portanto, instrumento temos e temas para programas é o que não falta. Por exemplo, porque não fazer:

1. Programa sobre meio-ambiente nacional e internacional, onde se possa falar de educação ambiental, recursos naturais, recursos hidricos, etc.
2. Programa de economia, onde se possa falar da economia nacional e, principalmente, da internacional, falando de mercados, cotações, etc.
3. Programa onde possa ser abordado os direitos humanos, direitos de consumidor, direitos trabalhistas e outros.
4. Programa de curiosidades sobre Ciência e Tecnologia.
5. Programa sobre História e estórias.
6. Programa sobre Cultura nacional e internacional, com saber popular, música, arte, cinema, hábitos, lendas e mitos
7. Programa sobre Vida e Cotidiano.


Enfim, estes são só alguns exemplos de assuntos a serem explorados. Por favor, você, cidadão, que também está inquieto com essa nossa Comunicação Social e quer refilar para termos algo de diferente e de melhor qualidade, deixa a sua sugestão no Comments ou mande um email para inkietod@yahoo.com que publicaremos o seu texto.

5 Comments:

Blogger Gafanhotu said...

realmente, bu tem razon, tem um problema relacionado ku politica e tem um problema relacionado cu geston di kes meio di comunicasson.

Falta di visão politica ta condiciona trabadju di geston e ao mesmo tempo ciclos di geston irresponsavel ta cria kes resultado ki eh actual radio e tv nacional.

Di otu lado, sociedade civil mesti evolui sis consciencia pa nu dexa di inguli coletivamente kes lixo ki produzido na comunicasson social.

Bu analise eh validu pa conscientiza nos guestis. Ninguem eh ca obrigadu a consumi lixo. Mah normalmente nu ta consumi cusas ki ka tem valor ou tem baxo qualidade e nem nu ca ta reclama. Si ki ta funciona nos consciencia coletivo.

28 de janeiro de 2005 às 11:06  
Blogger Matilde said...

as tuas inquietações têm razão de ser. Realmente, o mercado não oferece alternativas de qualidade, os meios de comunicação, no geral, tratam os diferentes públicos como uma massa uniforme, há lacunas graves em termos de política de audiência e de marketing. Mas também, não há opinião pública ( até nisso temos culpa, mas devemos partilhá-la com as famílias, o ministério da educação e história), ela é passiva: de que serve fazer uma denúncia, se as pessoas não reagem? Quantas matérias sobre a TACV, electra, Politicos, etc. Quem reagiu?Longe de assumir uma postura defensiva, como profissional da comunicação social, assumo um "mea culpa colectivo". Precisamos de mais jornalistas (com formação, superior ou não), mais ética e mais amor à camisola. Mas que categoria profissional cabo-verdiana é que nãio precisa desses valores? Me aponta um só. UM abraço inkietod!!

1 de fevereiro de 2005 às 20:08  
Anonymous Anónimo said...

Ha sim alternativas, so que sao estrangeiras, casos da RDP, BBC, Radio renascença e Radio frança Internacional. Sao meios de comunicaçao estrangeiros onde trabalham no entanto caboverdianos e que funcionam no mercado caboverdiano como se fossem meios nacionais. Sim, porque tratam todas essas matérias apontadas no seu comentario, dando a palavra a todos os actores politicos, economicos, culturais e outros da nossa praça! Quanto à formaçao, os jornalistas nao sao mais estupidos do que outra categoria profissional, so que estao mais expostos. Mas temos tambem muitos médicos mediocres formados em Cuba ou na Uniao sovietica e Roménia. Ou entao engenheiros formados na Roménia RDA e Checoslovaquia e tambem nalgumas universidades caixote delixo de Portugal e Brasil, que eles tambem sao mediocres. Tudo é relativo. Mas concordo que os jornalistas, porque é o que està em discussao, têm de se aperfeiçoar muito mais com as adequadas ferramentas de analise da compreensao do mundo. Mas isso infelizmente nao sao estagios de 15 dias ou formaçoes académicas de Cuba, que constituem a soluçao. A soluçao é uma solida formaçao intelectual, bebida nos classicos do pensamento filosofico, juridico, politico e economico. Chegou altura de dar uma formaçao intelectual paga pelo dinheiro publico a esses que sacrificaram a sua vida para este pais, mas que nao tiveram oportunidade de ter essa competencia intelectual. Essa gente està no pais, e paradoxalmente é a melhor preparada para tirar a comunicaçao do fosso porque sao os mais dedicados e aqueles que dominam melhor a lingua portuguesa. Os jovens têm formaçao académica mediocre e ideologica e nao sabem falar correctamente....

3 de fevereiro de 2005 às 09:57  
Anonymous Anónimo said...

estou de acordo contigo, mas au meu entender ouvindo criticas e que fazemos o melhor na proxima volta, um facto que nao acontece aqui, pois aqui aqueles que se consideram jornalistas ja se acham tao profissionais na materia que nao aceitam criticas do publico .em especial os que trabalham na tcv, pois esse e o meio de comunicacao caboverdiana mais asneira que tem, pois ai tem muita borocracia ,regras emfim ai tem tudo menos um espirito de equipas, profissionalismo. enfim por ser eles que aparecem aproveitam da televisao para aparecerem nao para transmitir informacoes importantes e nacessarias. as programacoes sao sempre a mesma sem se esquecer que e o ultimo a abrir e o primeiro a fechar, para isso a uma unica justificativa pregica mental e fisica pois nessa semana houve a devulgacao de 3 programas todas com a mesma imagem da praia um lugar bem proximo, se o problema fosse meios, eles nao teriam muitas imagem de longe um facto imposivel mas cria se um pragrama do dia das mulheres dao um imagem, no outro dia da mesma imagem criaram um noticia e noutro programa sobre agresoes fisicas a mesma imagem afinal para que tem ai os cameramen para passear. porque os jornalistas nao capricham mais nos seus trabalhos. para mim eles nao tem respeito para nos os telespectadores.

29 de março de 2006 às 12:46  
Anonymous Anónimo said...

Oi
Fiquei muito contente com a tua inquietação em relação a comunicação social em cabo verde. Não me encontro em cabo verde neste momento, mas vou seguindo as transformações das médias cabo-verdianos, para ser sincera não vejo muitas transformações. O meu objectivo é estudar ciência da comunicação e não descarto a opção de ir para cabo verde trabalhar. Em relação a televisão continuar a ser experimental tem razão, pois tive na net a pesquisar a programação da TVC e a televisão só entrava em funcionamento a partir das 18:00 da tarde isso é mesmo verdade? Depois de 20 anos, isto é dura de acreditar.
acho que o nosso pais tem muitos assuntos para debater, muitas historias para contar, tudo tem um inicio, e acho que em cabo verde tem medo de tentar ou entao querem apapinha feita. Espero que comessem a ter um papel mais activo.

12 de agosto de 2007 às 11:24  

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