sexta-feira, maio 13, 2005

Reflexão sobre Empresas Discográficas

O texto que hoje publicamos foi tirado do site da cantora brasileira Zizi Possi. Trata-se de um tema extremamente pertinente e que,infelizmente, acontece não só no Brasil, mas em Cabo Verde também. O abuso das empresas discográficas em relação aos seus artistas é algo muito comum no nosso país, os artistas são sempre colocados em segundo plano e raramente tem voz sobre os seus próprios trabalhos. Uma pena, que hoje em dia tudo seja feito pensando em mercado, o que leva-nos muitas vezes a consumir lixo musical em detrimento de algo agradável para nossos ouvidos.

Sem arriscar, do artista não brota a obra.
A realização dessa obra requer muita fé no que não se pode ver,
nem tocar,nem sequer acreditar que é possível...
e suportar a pressão dos incrédulos.
Ser artista é entre outras coisas, ter coragem de ousar,
de mergulhar no desconhecido até então.
Quem investe na arte?

Zizi Possi

Meus amigos;

Muitas pessoas que gostam de mim e do meu trabalho têm perguntado sobre a minha rescisão com a gravadora, e o que será do meu futuro.

Gostaria de responder a todos os que têm essa questão em mente, contando um pouco do que, e de como penso sobre isso.

Vale lembrar que não sou dona da verdade, nem pretendo convencer ninguém a respeito de nada.

Estou apenas expressando o meu ponto de vista, e esclarecendo minha opção.

É o seguinte:

A indústria da música no mundo gera o maior capital depois da de petróleo. Ou pelo menos gerava, antes da facilidade de reprodução de um CD pela pirataria, e da era Internet, ou seja: um próspero negócio.

As gravadoras multinacionais no Brasil, historicamente dominaram o mercado por serem mais ricas e organizadas, Graças ao geométrico potencial de desenvolvimento financeiro, chamaram a atenção e foram absorvidas por grandes corporações ou parques temáticos:

A CBS virou SONY MUSIC – mais um braço da SONY.

A POLYGRAM virou UNIVERSAL MUSIC – mais um braço do parque temático, cinema, bonequinho, álbum de figurinhas, etc e tal.... Que por sua vez já foi vendida para um grupo francês enoooooooooooooooooorme, e que nunca trabalhou com música antes.

A RCA de ontem, a do cachorrinho no gramofone, é hoje BMG. O André me mostrou pela Internet “ quem “é a BMG. Tentem ,e pasmem! E por aí vai...

Ou seja, nas últimas décadas, o negócio foi crescendo tanto que a própria indústria, deslumbrada com os louros conquistados, foi arrebatada pela tentação financeira e acabou abrindo mão de si própria, para se tornar mais um braço de uma grande corporação.

Como braço, se a “gravadora” não gerar um volume pré-determinado de dinheiro no ano, o cargo dos executivos entra em pane, e pode haver um desastre nas suas promissoras carreiras.

Que entre em pane então a arte, a cultura,o artista, e tudo o que é mais trabalhoso de colocar no mercado, pois o consumo deve ser rápido e por atacado. Sem riscos desnecessários.

Quanto mais essa rapidez atropeladora vai crescendo e “resolvendo” a questão, menos importância e cuidado sobra para a arte e o artista – originalmente a matéria prima da indústria!....

Salve as bundas! Salve o hedonismo! Salve a banalização do sexo, da televisão, do “tornar-se famoso a qualquer preço”, e da informação!!!
(que se faça justiça: esse mérito não é só da indústria da música!!! )

É o que temos, e teremos por um bom tempo, até que o mal se consuma a si próprio, e o povo se farte do sexismo, desmistifique a fama barata, e finalmente respire a permissão de merecer mais e melhor do que isso.

Em contrapartida, o Brasil é um grande mercado para a música. Não é tão difícil alcançar o mínimo anual estipulado. Não requer grandes investimentos comparados aos que os outros braços costumam disponibilizar para o marketing dos respectivos produtos.

Desde que abriu mão da sua identidade para se tornar “parte” de algo maior, deixou também de crescer, de se atualizar, pesquisar, abrir mercados novos, e de investir adequadamente nos seus produtos. Os caminhos para divulgação trocaram de nome mas continuam os mesmos!

Me pergunto:

Qual é o investimento de suporte que a indústria já fez por aqui?

Casas de espetáculo:

Empresas de igual ou menor porte,investem em suas marcas associando seus nomes a espaços culturais:
ATL Hall (Rio), Credicard Hall, Direct Tv Hall, Teatro Alpha Real (S.P.)

- Tem algum “UNIVERSAL MUSIC´S THEATER“ em algum lugar do Brasil?
Quem sabe um “WARNER Music Hall“ ????

Entre nós: para quem trabalha com música, investir num “show room ” - um lugar adequado para a apresentação da mesma - não é tão incoerente assim.... você não acha????

Seria até uma garantia de visibilidade para seu investimento, além de ser uma mais do que justa forma de reconhecer a hospitalidade brasileira, oferecendo à sociedade e ao artista mais um local de cultura, lazer e trabalho.

O Bradesco – instituição financeira – fundou e cuida de um grande e super bem estruturado orfanato.
O Bank Boston - instituição financeira - também.
O Itaú - instituição financeira - tem um centro cultural que oferece espaço e visibilidade para que artistas de várias áreas possam mostrar seu trabalho e o público tenha acesso à arte e informação.

Vocês já viram alguma ação cultural e /ou benemérita das multinacionais da música no Brasil ????

Tudo bem que a TV a cabo seja outro braço desta verdadeira “SHIVA” capitalista, e que portanto temos bolsos diferentes........ embora na mesma calça. Seria uma heresia pensar em contar com uma pequena janela – pode ser até uma fresta – para a apresentação do nosso produto musical, o da própria empresa ?!!? Todo o longa metragem lançado,tem sua trilha sonora distribuída e vendida pelo seu “braço” música do país em questão. Será que isso deveria permanecer assim mesmo, unilateral????

Aí vem aquelas justificativas todas para explicar que a divulgação é escassa porque os programas são sempre os mesmos etc etc

Ai que pena e que cansaço!
Tenho 24 anos de carreira profissional, e 46 de idade, ou seja: não dá mais para ouvir as mesmas desculpas de sempre por aquilo que não foi feito, e acreditar que as alternativas não são viáveis!!!!!

Reclamam da pirataria, e com razão. Mas temos de reconhecer que o mercado foi negligenciado pela própria indústria. Ela sempre subestimou o que chamava de “menor “. Nisso incluem-se a própria pirataria, que há 10 anos atrás representava um “nada” para o mercado, e as pequenas cadeias ou lojas isoladas, porém especializadas em música. A inadimplência alegada para o corte ao crédito das pequenas lojas, realmente é um fator desestruturador e requer providências.
Nem sempre encontramos a melhor saída para a crise. Acho que abrindo mão de vender música, abriu-se mão do mercado dela.

Tenho saudade de entrar naquela loja onde o mocinho de crachá se aproximava para ajudar, e quando eu perguntava sobre um determinado artista, ele sabia tudo o que havia sido gravado nos últimos anos. Mostrava os CDs, citava músicos e o solo da guitarra numa canção, o de sax na outra.... Eram bons os tempos em que se ouvia um disco inteiro com prazer e sede de estar perto da criação e do artista.

Hoje em dia, as lojas minguaram a tal ponto, que só se encontram CDs em supermercados, loja de departamentos, postos de gasolina, e graças a Deus em livrarias! Imaginem, o CD, produto tão vendido no país, perdeu sua própria loja!!!!

O terrível, é que nesses lugares, (nas livrarias menos) não há lugar para catálogos. Você só acha os sucessos:
1- da novela,
2- das rádios de “parada musical” ,
3- de compilação feito pela própria gravadora para parecer produto novo, e
4- com sorte, dos últimos 2 ou 3 CDs do artista – lógico, se tiverem sido um sucesso!

Sucesso – essa é outra boa questão a se repensar. O sinônimo de sucesso para mim sempre foi o de obter um resultado positivo como decorrência de algum bom trabalho.

Para se obter um resultado é preciso fazer alguma operação antes, certo?

Então, desde que sucesso passou a ser encarado como sinônimo de fama e de dinheiro a qualquer preço, foi diminuída a importância do trabalho do artista. O sucesso passou a ser a meta, e não o resultado.

As máquinas maravilhosas que corrigem desafinações, e trazem já ritmos e timbres completos, são capazes de reduzir o número de músicos e de consertar qualquer erro. Não sou contra essa tecnologia, muito pelo contrário – acho bárbaro! Só sinto por ela estar sendo utilizada tão abusivamente. O mercado e a mídia podem estar lotados de pessoas que se tornam famosas, mas nem por isso podem ser reconhecidas como artistas.

Isso é sucesso?????

Olha, até meu cachorrinho pode latir afinadinho, e com sorte se cair no gosto popular, ser o maior sucesso do Brasil. Sucesso no dicionário deles, bem entendido!

Cabe dizer, que neste momento da história, a indústria nacional de música – ontem um “nada “ para o mercado - tem revelado extrema criatividade ao lidar com o mercado, a mídia e as concorrentes. Que bom poder olhar para este cenário e ver que a batuta na mão da indústria brasileira (a verdadeira ABPD) está regendo um leque aberto de opções menos preconceituosas, preguiçosas e tendenciosas, garantindo um pouco da imensa variedade de músicas e estilos do país – o que caracteriza nossa riqueza cultural.

Tomara que não se percam pelo caminho. Não haverão de se perder!

Enfim quem sou eu para criticar? Como já disse desde o início, não sou dona da verdade. Essa é apenas a minha visão deste momento da história da música popular & indústria & mercado.

A mim, cabe apenas saber até onde posso andar nessa direção.Não me reflito nesses valores.

Sei que vai ser trabalhoso daqui por diante realizar meus projetos sem o suporte financeiro e mercadológico da indústria, mas acredito que vai rolar sim!Parei de andar por esse caminho, mas não parei de cantar. Gosto de música, muito! De música com “M” maiúsculo. E é essa a música que pretendo realizar sempre. Pode demorar um pouquinho, mas tenho certeza que vai rolar!

Para você meu querido amigo, que vem me acompanhando ha algum tempo, agradeço de coração, e espero retribuir lhe apresentando um trabalho do tamanho do seu carinho e atenção.
Vamos manter contato!

Um grande beijo,
ZZ

quarta-feira, abril 27, 2005

O jazz é música de elite?

Para mim trata-se de uma pergunta provocante e polêmica. Como gosto de coisas do gênero, vou tentar me aprofundar um pouco mais na questão fazendo algumas considerações à respeito do significado das palavras que formulam esta análise.Na minha opinião o jazz não é apenas um estilo de música. Mais do que isso ele representa um conceito musical / artístico. Podemos afirmar que o jazz não é apenas o que se toca, mas principalmente como se toca. Um aspecto que conta muito é a atitude do músico frente ao risco, frente ao incerto. Não existe limite, não existe formato imposto, talvez apenas sugerido. E o artista tem o direito (e até o dever) de propor novas soluções, novas direções. Para se tocar bem o jazz há que se ter um preparo técnico altíssimo, com similar na música erudita além de outras poucas situações. Mas o jazz também requer do músico o exercício pleno de sua criatividade. O que destaca o grande jazzman dos demais não é sua técnica, não é a forma e sim o conteúdo de suas idéias. É a maneira com que
ele imprime sua identidade no som. Muitas vezes com elegância, com sutileza, outras tantas com vigor, impacto, enfim: o conceito jazzístico permite que o artista crie, exponha sua personalidade na música que está concebendo.

Essa música não precisa ser necessariamente jazz. Pelo contrário, vejo cada vez mais o jazz como um veículo para outras linguagens, um passaporte para qualquer direção. Quem cursou essa escola está apto a mergulhar em outros estilos, logicamente com a humildade e respeito necessários à pesquisa de qualquer natureza. Prosseguindo na insana tarefa de decifrar o indecifrável, vamos agora abordar o conceito arte de elite. Historicamente sabemos que o conhecimento, o acervo de idéias de qualquer espécie (ciência, tecnologia, comportamento e arte, por exemplo) sempre esteve retido nas classes dominantes da sociedade. De natureza política, militar, econômica ou religiosa – o que muitas vezes englobava todos esses poderes – essa elite dominava as artes, interferia no seu desenvolvimento, deixando as classes menos
favorecidas à margem desse processo, obviamente. O conhecimento, o saber, a cultura estava nas mãos dos poderosos, a elite. Ao povo restava a luta pela sobrevivência. Interessante notar que pouca coisa mudou nesse aspecto, a não ser talvez um detalhe que veremos mais adiante.
O século XX representou um turbilhão na história da humanidade. Conquistas em todas as direções, tudo acontecendo numa velocidade espantosa, num ritmo vertiginoso de expansão contínua. O jazz despontou até a metade do século como a música popular norte-americana, estendendo essa popularidade ao resto do planeta. As pessoas cantavam e dançavam ao som das big-bands (as orquestras de jazz).Era a música que se ouvia nas rádios, nos programas de televisão, nos filmes de Hollywood. Era a trilha sonora de uma época, de uma geração.

À partir dos anos 40, com o fim da era do swing, os músicos de jazz evoluíram de forma definitiva, evolução essa contestada por alguns puristas. Mas é importante saber que inegavelmente o movimento be-bop, encabeçado por Parker, Gillespie, Monk, Powell, Mingus, entre outros gênios, constituiu um salto qualitativo, uma conquista observada no tripé básico do idioma musical: melodia, harmonia e ritmo. Coincidentemente (ou não) o jazz perdeu o status de música popular, se transferiu dos grandes salões onde as bandas se apresentavam em bailes efervescentes para o aperto dos enfumaçados night-clubs. Outros movimentos viriam, o cool-jazz de
Miles Davis (e Gil Evans), o free-jazz de Coltrane, até o fusion (com Miles novamente como um dos principais expoentes), onde o jazz essencial de alguma forma se esgotou e prosseguiu sua evolução incorporando-se a outros estilos como rock, blues, soul, etc. Até a bossa-nova interferiu nesse processo. Mesmo assim, cada vez mais o jazz moderno foi se associando a um público de nível superior, culturalmente falando. Desnecessário dizer que trata-se de uma minoria da população. São pessoas que aprofundam seus conhecimentos nas escolas, universidades, teatros, museus e afins. E é aí que reside nossa questão. Estamos falando de uma elite cultural e não econômica. Por mais que uma coisa possa interferir na outra (com dinheiro se tem melhores condições para estudar), tenho observado atualmente esse panorama se inverter de forma sutil, porém efetiva.

Gostaria de me transportar para a realidade de nosso país. A cultura musical brasileira - uma das mais vastas e ricas do mundo moderno - teve seu ápice nos anos 60 junto com o cinema novo, a poesia, a literatura, as artes plásticas. Muitos acreditam que até o golpe militar em 1964, a cultura no Brasil passava por um momento dos mais férteis. Hoje em dia, com o processo de banalização cultural estabelecido, é comum notarmos certa inversão dos valores. Atualmente a arte funciona a serviço do mercado e não o oposto, como deveria ser. Hoje o artista bem sucedido é na maioria das vezes aquele que tem um olho (ou os dois) estrategicamente aberto para toda movimentação de capital no meio em que transita. Sempre antenado com o mercado, ele se torna refém de seu talento comercial, pois molda sua criatividade de acordo com as tendências de consumo do momento. Esse talento publicitário geralmente é endossado pela mídia (significativo alicerce desse processo). Nada mais natural, pois hoje em dia tudo em gira em torno do consumo. Já o artista que fica à margem do grande empreendimento que é o showbusiness pode se considerar um verdadeiro marginal, dentro do mercado. Para não se render às fórmulas impostas pelo jogo financeiro, resta a ele o obstinado exercício de seu ofício como um militante da música, situação parecida com uma espécie de guerrilha cultural.


Voltando à questão inicial "o jazz é música de elite ?", curiosamente de um tempo para cá as classes economicamente mais favorecidas da população se renderam à música de baixa qualidade, muitas vezes denominada música do povo. É um rótulo que retrata bem a condição social, o ensino, a cultura negligenciada ao povo de um país com potencial tão grande. Tanto faz o estilo, brega-romântico-sertanejo-pagodeaxé, as vezes tudo junto no mesmo saco. Nota-se que há uma fórmula básica, uma receita bem definida: melodias pobres, harmonias patéticas, letras péssimas (muito cuidado com qualquer coisa que possa parecer inteligente) e refrões pegajosos, para colar na boca do povo. Pronto, somando uma estratégica dosagem de carisma

pessoal (coisa que independe de qualidade artística) do animador, o sucesso está garantido. Entretanto, venho observando a formação de um público alternativo consistente, a procura de novas informações, novos conceitos, novos valores. Um público que percebe que a arte pode ser mais do que um produto, pode servir também para questionar e emocionar, fazendo com que as pessoas pensem e evoluam além de se divertirem. Com o passar do tempo, cada vez mais pessoas descobrirão que música não é como xampú, automóvel ou sabão em pó. A música pode realmente ser mais do que um produto, apesar de todos os segmentos que regem o mercado estabelecerem o contrário. Quanto a esse público ou essa elite, como preferirem, noto uma mudança expressiva no seu perfil. São pessoas geralmente de classe média ou baixa, o que para mim representa um avanço significativo nas platéias adeptas a uma proposta mais ousada de arte. Concluo com a esperança de um dia haver maior espaço democrático não só para o jazz, mas para qualquer tipo de idioma musical de qualidade no país e no mundo. Sabemos que para isso é necessário trabalhar dobrado, incansavelmente.

Portanto, mãos à obra.



Kiko Continentino, Junho de 2002


Kiko é pianista, arranjador, compositor e produtor musical. Trabalha há seis anos com Milton Nascimento e vem se dedicando também a shows com seu primeiro CD instrumental "O Pulo do Gato", além do ContinenTrio, grupo que conta com a participação de seus irmãos Jorge e Alberto Continentino.

quinta-feira, abril 07, 2005

Delegação do Ministério da Cultura em São Vicente

O recente anúncio feito pelo ministro da Cultura Manuel Veiga da abertura da Delegação do Ministério da Cultura na ilha de São Vicente e a nomeação da Sra. Josina Freitas a delegada da referida delegação poderá ser um passo importante no desenvolvimento da Cultura cabo-verdiana, principalmente das ilhas de Barlavento, que há muito se sentem marginalizadas.
Espera-se que este não seja uma delegação meramente figurativa e que funcione simplesmente como mais um elemento de campanha para as eleições de 2006. A classe artística e a população em geral há muito que anseiam por essa delegação, vendo-a como a quebra do distanciamento entre os artistas de S.Vicente e de todo o barlavento com o poder central.
Isso vai depender muito da vontade política dos nossos governantes, tanto a nível do governo central como dos municípios, essencialmente o município de S. Vicente. Esperemos que se deixe o bairrismo de parte (tanto de um lado como de outro), que se deixe de lado as brigas partidárias, pois a cultura cabo-verdiana transcende as mesquinhas brigas de partidos A, B ou C, sem dizer que a população de São Vicente já não aguenta mais ser alvo de disputas político-partidárias que não tem contribuído em nada para o seu desenvolvimento local.
A Sra. Josina Freitas, como actriz e conhecedora do meio cultural mindelense e cabo-verdiano é consciente das dificuldades que encontrará pela frente, mas que certamente com a ajuda de todos fará com que a nossa Cultura continue sendo um motivo de orgulho, dentro e fora de Cabo Verde. Portanto, o lema agora é trabalhar, criar, agitar!

quarta-feira, março 23, 2005

ReEvolução Kultural

CAPITULO I

Kultura, é um palavra bnit, ma el é um verdaderâ bosta(desculpa_me ess expressao kes burro é k ta fazel), konde bô ta oia ke bo paìs ta vivé num verdadeira TIRANIA KULTURAL, ja tem mais de 20 anos, dominode pa um quadrilha de pseudo_intelectuais, ditos senhores de sabedoria de nôs nação, e que nô ta atravessa um momente de grande estagnaçao de produtividade kultural(segundo alguns), ondé k kem ta tra proveito, é um meia duzia de sempre, e que esh ta refugia na mesma desculpa de sempre, « que ka tem nada de novo », sem ninguém desconfia de ses manobra.

Um paradoxo : nô ta vive na democracia ja tem uns tempos, ma democracia, ka tchegà na nôs cultura, e el ta bem dura ness mesmo estado por mais um bom tempo, a não ser que parce algum «grupo terrorista cultural » pa minà ess sistema de amigagem e elitismo de nôs Kultura, el precisa dum verdadeira REEVOLUçÃO (revolução+evolução), porque senão, nô ta bem ter kës mesmo gente , na kës mesmo lugar, por mais uns bons tempo.

Exemplo flagrante a nivel musical , ess promoçao de zoukalhada e derivados, que nô tem( na nos televisão e radios) el ka tem mais beneficiario do ke ses promotores e companhia, e mais kel cambada de parvos é ke ta fazel pa ganha denher, sem nenhum sentimente, sem nenhum amor a nôs unico riqueza : nôs kultura(ma kel seja kel de nôs).

Um verdadeira formatação cerebral, que nô ta ser fet , sem faze um minimo pa contrarià ess cambada de pseudo_intelectuais, que tem ses continha feito ja tem tcheu temp.Gente que cerebro e inteligençia ka ta falta na terra, ma tambe sem escrupulo e aproveitadores tem tcheu li pa nôs banda.Por isso, ess é um apelo pa tude kem krê contrarià ess dita estagnaçao, e ess aproveitamente de nôs kultura pa esh tiranos e gente k tras de $$$$.

Nimguém é obrigode a segui mesma linha de ses antepassode, e tcha tude na mesma , se no ka ta aceita, nô dze sem medo o k no ta pensa, e nô faze sem medo akilo k no kre faze pa um verdadeira kultura caboverdiana.Nem tude o kês pobe na prote bô é obrigode a cmel, bo pode cuspil, se bo ka ta gosta.

Ja tchegà temp de no dze : BASTA DE BOSTA

Assinado :ARU TLUK, aka Dom Bilau III

sexta-feira, março 18, 2005

A (In)Segurança em Cabo Verde

Casas arrombadas à luz do dia, carros incendiados ou furtados, crianças violadas, pessoas assaltadas, assassinatos misteriosos a tiros e com arma branca, pessoas andando com pistolas na cintura prontas para atirar… Credo!! Até parece o programa Cidade Alerta da Rede Record. Mas o nosso arquipelágo está mesmo em alerta Vermelho.
Lá se foi os tempos em que as pessoas andavam nas ruas de Cabo Verde de forma tranquila, sem preocupações de serem assaltadas; em que as crianças corriam para lá e para cá sem perigo de serem molestadas; em que se deixava a porta entre-aberta para “correr um ar”.
Hoje, o cidadão caboverdiano não anda tranquilo, o medo passou a fazer parte do seu quotidiano. Está sempre ouvindo histórias horriveis que aconteceram com o vizinho ou com algum amigo e a população está a mudar alguns hábitos e comportamentos por causa da violência que assola algumas das nossas cidades.
Isso é extremamente preocupante, principalmente para um país que vê o turismo como pedra angular para o seu desenvolvimento. Mas a pergunta que coloco é onde estão as nossas autoridades, o Governo, a Polícia, os presidentes e as presidentes das Camâras Municipais, os nossos representantes na Assembléia Nacional (deputados da nação) para colocarem este assunto em pauta e arranjar soluções? Afinal, nem todo o cidadão caboverdiano consegue ter um segurança particular, um guarda-costa, andar de carro blindado, um guarda na porta de seu condomínio ou um alarme moderno na sua mansão.
Acho que nós, cidadãos desse país merecemos outro tratamento, ou só servimos para pagar impostos? Impostos já pagamos muitos, aliás com a introdução do IVA o governo passou a arrecadar mais, portanto, deveria estar investindo mais em áreas prioritárias como Segurança, Educação, Sáude, etc.
Acredito que as nossas polícias precisam ser mais eficazes, mais actuantes, estarem mais presentes nas ruas (principalmente á noite fazendo rondas), o nosso judiciário precisa de uma reforma urgente. O governo deveria começar a investir mais em Segurança, na luta contra o tráfico e o consumo de drogas, que são algumas das causas da violência em Cabo Verde.
Portanto, caro cidadão, enquanto isso não acontece aposte na prevenção, mas não deixe de cobrar teus direitos que estão consagrados na Constituição da República. O direito a Segurança é um deles.
Césaria Evora canta que Cabo Verde é um brasilirim, mas não queremos que seja a nivel de insegurança.

domingo, fevereiro 13, 2005

Revista Dá Fala já ta na rua!!!

“Talvez é a palavra diariamente mais usada neste arquipélago. Mas nós contrapomos um sim de afirmação de vontade urgência em fazer esta revista. Plena de força expressiva, Dá Fala faz alusão ao mundo novo que os poetas das ilhas cantaram, que agora chega e nos bate à porta convidando-nos a viajar, a mexer, a passar além da fronteira, a franquear este “Porton di nôs ilha”. Dos vários significados da expressão no seu uso vulgar, salientamos que Dá Fala é ir ter com as pessoas, a partir da fala dar voz às pessoas…abrir-se às pessoas…Dá Fala é conectar com este mundo generoso. É retomar a herança, na óptica do Capitão das ilhas, consciente de que a herança não é dádiva, mas sim descoberta e invenção. É recusa categórica da passividade imposta, da “geração rasca” magistralmente suportada por muitos. É romper as grades do silêncio desta condição insular. È inquietar-se, dar um murro nos olhos do mundo para assim poder ver melhor e, com ou sem “topada” (tropeços), caminhar…Dá Fala é ter palavra, ter palavra é ter poder, e assim acender a nossa minúscula lanterna de mil cores, neste cadinho de terra lançado no baricentro dos três grandes continentes, África, Europa, América.

Como verbo de eleição escolhemos, portanto, intervir. Do latim inter “colocar-se entre”. Sinónimo de tomar parte ou participar, usar da palavra, agir no sentido de alterar, influenciar uma situação. Dá Fala surge da ideia de que “precisamos de sintonizar Cabo Verde com o universo” (como se diz em Chiquinho) e é oportunidade de expressão, com colaborações de gente que começa a escrever até aos nossos ilustres convidados artistas e pensadores. Para todos, um conselho: tirem as vossas prosas da gaveta, ou melhor, do disco rigido para o papel e façam o mundo girar mais depressa com a força das palavras”.

Ess é extrate de um parte de editorial de revista Dá Fala que foi lançode sexta-feira, dia 11 de fevereiro na Soncente. Ess primer númere desse revista é frute de persistência, tcheu traboi, e principalmente de sonhe de alguns jovens na Soncente de kre pô mais um instrumento na mon desse sociedade k realmente cada dia meste ser mais ativo. Ess revista é parcialmente financiode pa Instituto Português de Apoio de Desenvolvimento ma pel tem continuidade el meste de apoios pa sustental, por isso nó apoia esse iniciativa. No kompra Dá Fala, no dze nós amigos pa compra também, no apoial k publicidade, no escreve pa Dá Fala, o simplesmente dá um fala, afinal ess revista nó kre pal ser de tud nós, de Sintantom a Brava.

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Sobre a vaidade no campo acadêmico


Pessoal hoje m ti ta coloca li um texte k m otcha interessante, só pa se titulo gente ta oia k el é sugestive. M ta otcha k esse texto ta dente de linha de discussão de texte k foi colocode li ness blog antes. Ess texte é de Professor António Ozaí da Silva, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PCU/SP), do Conselho Editorial da Revista Margem Esquerda e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo.

Esse texte foi trode de Revista Espaço Acadêmico, N 45 de fevereiro de 2005 www.espacoacademico.com.br .

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Ele entra na sala de aula e escreve o seu nome na lousa: Prof. Dr. fulano de tal. Durante sua brilhante exposição – de acordo com a sua própria opinião – um aluno, um tanto desatento às exigências hierárquicas e ritualísticas, lança-lhe uma pergunta. O problema não está no questionamento. O Prof. Dr. fulano de tal, do alto da sua sapiência naquilo que lhe dá o status de “o” especialista, tem resposta para tudo (e se não tem, enrola, pois quem ousará duvidar da sua autoridade?!). Não, a irritação que o Prof. Dr. fulano de tal expressa em seu tom de voz é uma reação à impertinência do aluno. E ele, o professor, deixa-o claro na resposta: “Aqui em sala de aula – e aponta para o escrito na lousa – sou o Prof. Dr. fulano de tal. Pobre aluno que ousou chamá-lo apenas de professor!

Ela é doutora, uma das poucas naquela instituição. Isto lhe parece garantir status diferenciado em relação aos demais. Os colegas comentam nos corredores sobre a arrogância da Profª Drª fulana de tal. Mas eles têm lá as suas vaidades e, no final das contas, a Profª Drª fulana de tal sabe que, embora não tenham o mesmo título, desempenham a mesma função – e quem sabe, sejam melhores naquilo que fazem! Por via das dúvidas, ela tem o cuidado de não ultrapassar certos limites. Muito diferente se dá em relação aos seus alunos. Estes, coitados, têm apenas como mérito a vitória no funil do vestibular. Para a ela isto não tem grande valor – e talvez ela tenha razão, pois não há correspondência direta entre memorização de conteúdo, inteligência e capacidade de reflexão crítica. Ela não admite intromissão dos alunos; os que ousam lhe dirigir a palavra são rispidamente colocados em seu devido lugar. A Profª Drª fulana de tal não admite, sobretudo, questionamentos sobre as verdades que verte diante dos pupilos. Os que insistem em questioná-la são silenciados e ela não hesita em usar adjetivos nada positivos para aquelas mentes em formação. “São uns burros! Estudem primeiro!” (Quem sabe quando tiverem doutorado possam conversar de igual para igual; o que não sabemos é se a Profª Drª fulana de tal ainda estará sobre ou sob a face da terra). Mas eis que os alunos decidem protestar e mostram que são inteligentes o suficiente para adotar uma estratégia cujo resultado é tão positivo quanto dolorido: o desprezo. Um belo dia ela se dirige à sala de aula e se vê diante de uma situação inusitada: a sala está vazia; os alunos e os móveis utilizados por estes estão na parte externa da sala; dentro, apenas a mesa da Profª Drª fulana de tal. A propósito para que serve o educador se não tem a quem educar?

Ele é um excelente professor. Domina o conteúdo e se impõe em sala de aula. Para ele, rigor científico equivale às grandes teorias expostas por autores que escrevem em estilo ininteligível para a maioria dos seres mortais. Para ler tais textos, e compreendê-los minimamente, seus alunos precisam recorrer aos dicionários das várias áreas do conhecimento humano. Ele não se importa, afinal já sabe e teve que passar por isso. Sua linguagem obedece à formação teórica, política e ideológica que teve: é igualmente ininteligível. Numa das suas aulas, os alunos conseguem trazê-lo para o mundo real e estabelecem acirrado debate sobre as eleições. Ele se vê pressionado pelo questionamento da sua posição política. Então, ele recorre àquele tipo de argumento aparentemente inquestionável e que finda qualquer discussão: “Vocês não compreendem, vocês só lêem o jornal Folha de S. Paulo”. Pronto! Em outras palavras: “Como ousam discutir comigo, eu que tanto li e que tenho a experiência dos anos? Cresçam, leiam os textos que li, estudem os autores que estudei e, então, talvez terão condição de me questionarem”. A vaidade dificulta o entendimento de que a retórica pomposa nem sempre dá conta de tudo; que a realidade é mais rica que a cinzenta teoria; e que, para se posicionar politicamente, nem sempre é necessário o domínio das teorias complexas. Sua atitude demonstra uma visão elitista e preconceituosa em relação ao conhecimento que não se enquadra nos cânones formais da academia. O professor perdeu o debate político, as estribeiras e do alto da sua alegada experiência, fundada no acúmulo de leituras, ele se mostra incapaz de manter o equilíbrio diante dos seus tão inexperientes alunos. Ele perdeu também a oportunidade de refletir sobre os vínculos entre a excelência do seu conhecimento teórico e a vaidade no inconfessável sentimento de superioridade.

Ela escreve mal. Seu estilo é panfletário. Uma eterna repetição de slogans e fórmulas desgastantes, recheadas por inumeráveis citações, argumentos de autoridade que, repisados à exaustão, demonstram pelo menos uma coisa: ela é leitora de um único autor. Sua verdade é a verdade revelada pela interpretação do texto sagrado. Ela talvez não tenha consciência do que faz, mas age como sacerdotisa de um culto profano. É a guardiã do dogma, é sectária. Mas... ela é sua Ex.ª a Drª., e tudo lhe será perdoado! Como disse Aquele cujo nome conhecemos: “Ela não sabe o que faz!” Ela continuará a associar as palavras e se imagina a auctoritate no assunto. Uma autoridade menor, é verdade; uma espécie de reflexo de uma luz maior e poderosa, isto é, a autoridade na qual se espelha e cita abusivamente. Ela propaga esta luminosidade, se nutre dela. Em sua humilde condição de discípula, ela se vê como o instrumento de difusão da energia que deve alimentar a humanidade. Todo o seu poder advém do autor sacralizado e dos seus livros canônicos. Não obstante, não esqueçamos: ela é a Ex.ª a Drª E isto lhe dá mais força em sua missão redentora; dá-lhe, ao menos, a condição de estabelecer um séqüito de aprendizes e guardiões do dogma. Seu profeta ainda não foi canonizado pela Santa Madre Igreja, mas foi elevado à altura dos cânones reconhecidos pelos profanos, os quais constituem várias igrejas – que polemizam entre si, mas se saciam nas mesmas fontes.

Ele escreve bem! Seu estilo é erudito e demonstra ruptura com os enquadramentos estanques entre as diversas áreas do conhecimento humano. Definitivamente, ele não é um especialista. O que o qualifica positivamente, pelo menos na percepção de alguns dos seus colegas, é visto como embuste pelos mexeriqueiros a postos. “É um charlatão!”, dizem as más línguas. Não devemos legitimar este tipo de comentário, nem participarmos do jogo mais antigo e preferido dos que passam a própria vida a falar da vida alheia. Contudo, como diz o dito popular, “onde há fumaça, há fogo”. Quando se escreve sobre tudo e todos, arrisca-se a perder o bom senso sobre a limitada capacidade humana em relação ao conhecimento. Assim, se tais injúrias nos chegam aos ouvidos, devemos ter o bom senso de pensar sobre o nosso proceder. Mas eis que entra em cena a vaidade: imersa em sua própria luz, sua Ex.ª o Dr. faz ouvido de mouco. E a sua fama atinge o ápice. Um olhar atento e não propenso aos mexericos poderia ajudá-lo a perceber que sua pretensa erudição não é suficiente para mascarar o conhecimento enciclopédico e dicionáristico; e, talvez o mais importante, poderia contribuir para que ele tivesse o bom juízo de não se imiscuir no que não deve. Mas quem ousará falar-lhe sobre tema tão complexo e, ainda por cima, tenha a capacidade de não ferir sua vaidade? O risco é que ele, embevecido, não o escute e ainda lhe atire a pecha de invejoso ou algo parecido.

Seja num ou noutro caso, o que escreve bem ou mal, é muito difícil tecer qualquer comentário sem ferir susceptibilidades. A propósito, há no meio acadêmico uma falsa identificação entre titulação e capacidade de escrever. O fato de o indivíduo ter o título de doutor não é garantia automática de que ele saiba escrever bem e, muito menos, que é um bom professor – no sentido didático e pedagógico. Escrever bem não é apenas juntar palavras e formar frases altissonantes. A suposta erudição demonstrada num texto ininteligível não é, necessariamente, uma qualidade intelectual; pode ser, simplesmente, pura afetação. A complexidade na linguagem muitas vezes caracteriza um exercício de arrogância, de pose acadêmica, relacionado à necessidade do intelectual em se firmar pelo status.

Mas, voltemos à sua Ex.ª o Dr. No fundo ele se imagina imune ao risível. Portanto, ele age com naturalidade, como se os simples mortais, incluindo seus alunos, fossem obrigados a pagar um tributo à sua titulação. Estes, por seu turno, projetam nele o futuro a ser alcançado. Suas atitudes passam a ser modelares – para o bem e para o mal. Além de modelo a ser seguido – ou repudiado – o Prof. Dr. fulano de tal, pela posição que ocupa na hierarquia acadêmica, tem recursos para manter aos alunos sob sua dependência.

É claro, há as exceções. Tomemos os exemplos acima como tipos ideais. Não significa que existam na realidade exatamente como descritos, mas representam espécies que podem ser encontradas na selva acadêmica. E, a favor, destes tipos, devemos acrescentar que: 1) a cultura e os valores predominantes no campo acadêmico são elitistas; 2) a universidade reproduz os princípios que fundamentam a competição na sociedade; 3) a vaidade é humana.

Demasiadamente humano

A vaidade é humana, demasiadamente humana! Eis um pleonasmo necessário. Sim, porque muitas vezes são precisamente tais características as que menos se tornam objeto de nossas reflexões – e não me refiro aos exercícios mentais filosóficos, sociológicos ou coisa do tipo, mas sim, a uma atitude que, me parece, deveria pautar nossas ações cotidianas. Comecemos por assumir que, em menor ou maior grau, todos somos vaidosos. Já os antigos, através do mito de narciso, ensinaram que o desejo desenfreado em atrair a admiração e a atenção produz conseqüências que podem ser trágicas. No limite é uma demonstração de tremenda sandice.

É incrível como, mesmo diante de situações nas quais a vaidade não faz qualquer diferença, os homens e mulheres não conseguem se livrar deste sentimento. O diálogo entre um jardineiro e o visitante de um cemitério, escrito por Alexandre Dumas Filho (2003:47), em A Dama das Camélias, ilustra bem este aspecto:

“Quero dizer que existe gente que é orgulhosa até no cemitério. Parece que esta mademoiselle Gautier fazia a vida, desculpe a expressão. Agora ela está morta e é igualzinha às mulheres que nada fizeram de reprovável e das quais regamos as flores todos os dias. Pois bem, quando os parentes das pessoas que estão enterradas ao lado dela souberam a vida que essa moça levava, revoltaram-se por ela ter sido enterrada aqui e disseram que deveria haver um lugar só para esse tipo de mulheres, como há para os pobres. O senhor já viu uma coisa dessas? Eu teria postos essas pessoas no lugar deles! Gente gorducha que vive de rendas, que não vem sequer quatro vezes por ano visitar seus defuntos, que traz pessoalmente as flores... e veja que flores! Eles reclamam dos gastos de conservação das sepulturas daqueles por quem dizem chorar, escrevem nas lápides sobre lágrimas que jamais derramaram e se fazem de difíceis, querendo escolher a vizinhança”.

Durante muito tempo acreditei que a morte nos igualava. “Pelo menos isso!”, pensava. Hoje, tenho consciência de a sociedade cria desigualdades que extrapolam o próprio caráter da finitude humana. Mas deixemos estes homens e mulheres de ares aristocráticos em seus próprios devaneios e retomemos o fio da meada.

Max Weber observou que a vaidade pode levar o político a cometer um dos pecados fatais em política, ou ambos, simultaneamente: se abster de assumir uma causa e do sentimento de responsabilidade. Se o político está sujeito à vaidade, o intelectual padece da mesma doença. “A vaidade é um traço comum e, talvez, não haja pessoa alguma que dela esteja totalmente isenta. Nos meios científicos e universitários, ela chega a constituir-se numa espécie de moléstia profissional”, sentencia Weber. (grifos nosso) Não obstante, o sociólogo alemão é condescendente com os colegas acadêmicos, pois considera que a vaidade do intelectual não oferece tanto risco à sua atividade quanto o que ocorre em relação ao político: “Contudo, quando se manifesta no cientista, por mais antipatia que provoque, mostra-se relativamente inofensiva, no sentido de que, via de regra, não lhe perturba a atividade científica”. (WEBER, 1993: 107) Será?! Para o estudante ou o colega que tem que suportar a vaidade desmedida, talvez seja o oposto que ocorra. Do ponto de vista puramente empírico, os que nos oferecem mais riscos são os que estão mais próximos!

Mas deixemos Weber em paz! Independentemente das suas formulações sobre a vocação do cientista e do político, o fato é que esta “espécie de moléstia profissional” grassa em nosso meio. E as pessoas sensatas talvez se perguntem: por que? Há, inclusive, a espécie de ingênuo que candidamente imagina que este tipo de comportamento é algo contraditório com o espírito culto que, em tese, permeia a universidade. “Como é possível?, se pergunta. Ele tem a esperança de que os colegas, através do diálogo e da persuasão, superem as influências nefastas que os fazem agir incivilizadamente. Como diria aquele personagem das histórias em quadrinhos: “Santa ingenuidade!!!”.

Todavia, observe-se que mesmo este tipo de ingênuo padece da mesma “espécie de moléstia profissional”: na essência sua postura é prisioneira de uma vaidade enrustida numa pretensa humildade; é uma atitude idealista, no sentido de que desloca a universidade – e os que nela trabalham – da realidade social na qual está inserida; é elitista porque, no fundo, se imagina como partícipe de um mundo constituído por seres especiais, dotados de moral e cultura superiores e capazes de escapar às futilidades humanas. Este personagem não se reconhece no mundo real e se escandaliza porque seus pares não representam o mundo imaginário do Olimpo. É vaidoso e talvez não o saiba porque lhe parece natural a vaidade de sentir-se superior!

Concluindo...

Se a vaidade é humana, não é possível compreendê-la apenas pelo senso comum quanto às atitudes observáveis no campo acadêmico. A sociologia pode contribuir para compreendermos este fenômeno. E isso talvez seja um bom começo para evitarmos repetir o que reprovamos nos outros. Mas, é claro, a sociologia – ou as grandes teorias, em geral – não são antídotos para tal moléstia. Um grande passo para quem deseje se curar é voltar-se para si mesmo e... mudar de atitude. No mais é necessário muita, muita, muita paciência!

[1] Em artigos publicados nesta revista procuramos analisar criticamente o vestibular e o método de ensino decoreba, um dos seus principais pilares, e que influi sobre todo o processo de ensino-aprendizagem, do nível fundamental ao superior. Ver: À mestra e ao mestre com carinho e compreensão!; O engodo do vestibular e os dilemas da classe média empobrecida; “Estudo Errado”: Qual é a capital de Kubanacan?; e, As dimensões da relação aprender-ensinar; e, Vale nota, professor?!

[2] Em certos casos, a complexidade das grandes teorias também pode ser um recurso para que elas se firmem, tornando-se áreas restritas à uma ínfima minoria de especialistas. Tais teorias, como assinalou MILLS (1982:30) na crítica a Parsons, padecem de “um formalismo complicado e árido, no qual a divisão dos Conceitos e uma interminável redisposição torna-se a principal tarefa”. É preciso traduzi-las. E, então, fica nítido que a sua complexidade é um recurso formalista, ou seja, que não é preciso escrever longos e ininteligíveis parágrafos para explicar as coisas simples. Os conceitos são necessários, mas é preciso relacioná-los com a realidade social e movimentar-se entre os diversos níveis de abstração. Em geral, a ininteligibilidade esconde o fetichismo dos conceitos e cumprem uma função excludente, gerando a ilusão de que o seu domínio torna alguns superiores aos demais.

[3] A necessidade de citar e recitar está vinculada a uma espécie de humilde sacerdócio. Como analisa BOURDIEU (1998: 162): “O sacerdócio comum cita e recita; o grande sacerdócio suscita e ressuscita. Pode acontecer que leve a audácia até o ponto de expor as discordâncias ou mesmo as contradições (é o caso de Abelardo) encontradas nas fontes de revelação”.

[4] A identificação com o ‘profeta’ não é apenas um exercício de sacerdócio, ela gera dividendos, isto é, ‘lucros’: “O eu sacerdotal deriva da autoridade do profeta de origem; todavia, por maior que seja a modéstia (condição de participação no capital herdado de autoridade) que o impede de falar efetivamente na primeira pessoa, ele não pode esquecer que possui algum mérito por restaurar o capital em sua integridade através da desbanalização, revolução da leitura que define a revolução letrada.” (BOURDIEU, 1998: 160 e 62) Ele é o instrumento de propagação da palavra, a qual, proferida por ele parece-lhe ter a mesma autenticidade daquela pronunciada (escrita) pelo profeta de origem: “O sacerdócio se instaura como guardião da autenticidade da mensagem, a única capaz de proteger contra a “recaída” nos erros...” [em relação ao profeta] (Id.: 162-63).

[5] “Só o discípulo faz legitimamente o “sacrifício do intelecto” em favor do profeta, como só crente o faz em favor da Igreja. Nunca, porém, se viu nascer uma nova profecia (...) em razão de certos intelectuais modernos experimentarem a necessidade de mobilizar a alma com objetos antigos e portadores, por assim dizer, de garantia de autenticidade, aos quais acrescentam a religião, que aliás não praticam, simplesmente pelo fato de recordarem que ela faz parte daquelas antiguidade. Dessa maneira substituem a religião por um sucedâneo com que enfeitam a alma como se enfeita uma capela privada, ornamentando-a com ídolos trazidos de todas as partes do mundo. Ou criam sucedâneos de todas as possíveis formas de experiência, aos quais atribuem dignidade de santidade mística, para traficá-los no mercado de livros. Ora, tudo isso não passa de uma forma de charlatanismo, de maneira de se iludir a si mesmo”. (WEBER, 1993: 50)

[6] Com enfatiza MILLS (1982:235): “Escrever é também pretender para si um status pelo menos bastante para ser lido. O jovem acadêmico participa muito de ambas as pretensões, e porque sente que lhe falta uma posição pública, com freqüência coloca o status acima da atenção do leitor a quem se dirige.(...) O desejo do prestígio é uma das razões pelas quais os acadêmicos escorregam, com tanta facilidade para o ininteligível”. Mas também é o caso do acadêmico já em idade avançada, que, por arrogância ou falta de criatividade, procura impressionar pela falsa erudição.

[7] A sociologia e, também a literatura e o cinema. Ver: Óleo de Lorenzo e Patch Adams: A arrogância titulada; Os intelectuais diante do mundo: engajamento e responsabilidade; e, Aqui jaz fulano de tal... e a sua superioridade!